PSORIERJ /DV


Eu tenho psoríase e você?

EU TENHO PSORÍASE, E VOCÊ? [1]

- Professor João, você tem Psoríase?

Com essa pergunta no intervalo, o jovem universitário se aproximou.

- Eu também tenho. Olhe (ergue a camisa) tenho em muitas partes do corpo desde os 15 anos. Percebo que o lado direito está tomado por grandes manchas vermelhas com escamações. O bate papo me tocou profundamente.

Então, pensei, como entender a saúde na comunicação? Resolvi escrever.

Hoje, tenho 43 anos, mas descobri, em 99, que tenho a doença Psoríase. Talvez tenha aparecido pelo estresse, pela falta de sol ou até mesmo pela perda da mãe, em 96, e do pai, em 97. Tudo, isso junto, talvez, fez surgir, em meu corpo, aquelas manchas vermelhas, como escamações – nos cotovelos, nos tornozelos, na perna direita. Nas pontas das unhas, manchas brancas. Aliás, é onde ela costuma se manifestar. Falando da Psoríase, trata-se de uma das doenças de pele do século, pois, entre cada 100 pessoas, três tem ela manifestada, em vários estágios: simples, avançada e crônica.

- Professor, será que essas manchas que aparecem por causa do estresse, durante o processo da monografia (elaboração, pesquisa e apresentação), com defesa em banca pública, é Psoríase?

- Somente um diagnóstico médico poderá responder. Digo firmemente.

Nesse momento, por um instante, faço uma reflexão, e volto para 1996, às primeiras consultas médicas em Porto Alegre, com dermatologistas. As manchas nos cotovelos, dobras dos membros, atrás das orelhas, na nuca e nas unhas. Exames e mais exames. Diagnóstico: fungos, ou doenças que se desconhecem. Vários médicos, pomadas diferentes. Gastos, muitos gastos. Sentia-me como um cobaia. Resultado dos exames: negativo. Apenas uma declaração: “Você tem seborréia no couro cabeludo”. A partir de então, faço tratamento com remédios, xampus e pomadas. Produtos de valores não acessíveis à população brasileira. Ou seja: estou com Psoríase há mais de oito anos. Troquei de médico, mas nada de novo, e então sigo as orientações médicas, ingerindo medicamentos, passando cremes e pomadas, e xampus anticaspa.

Em 1999, uma troca de dermatologista, no primeiro contato, ficou constatado minhas manchas vermelhas no cotovelo e no joelho, e as pequenas escamações na perna direita, e, depois, a conhecida seborréia na nuca. Ela disse: “Não quero afirmar, mas você tem Psoríase. Você já fez biópsia?".

- Não! Ninguém me solicitou.

- Pois, então, você vai fazer.

No mesmo dia, fui fazer a biópsia e todos os exames novamente, inclusive os referentes ao sangue.

- Resultado: Negativo. Não reagente.

Impaciente! Impaciente, sim. Pois, sou um paciente que vem se questionando sobre o insucesso do tratamento. Passei a noite pesquisando na Internet. Tudo sobre a Psoríase.

Isso foi em 99. Vou diretamente aos sites de buscas na internet, com a palavra-chave: Psoríase. Quanta informação! Sequer recebi um mínimo material informativo na consulta. Realmente, a Internet desempenha papel importante: socializa informações. Começo a ler, baixo fotos, acompanho depoimentos de pacientes com Psoríase, os laboratórios, as pesquisas no mundo, principalmente em Cuba. Chocado, perplexo, cai na real, e choro.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), saúde é “o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doenças”. Percebo que o meu bem-estar físico, mental e social, durante os últimos anos, ficou abalado, por vários motivos, tais como a perda de familiares, mudança de emprego, péssima alimentação, novos desafios no emprego (opção pela docência), questionamentos da sociedade etc. Constato a origem e o processo da Psoríase. Resultado da biópsia: positivo. A Psoríase não é contagiosa. Não se transmite por contato físico e ou pelo uso de objetos como copos, toalhas, cuia de chimarrão, talheres etc. Mas não tem cura até o presente momento.

Praia de Balneário Camboriú. Verão de 2004. Uma moça, turista argentina, se aproxima. Estou na sombra. São 12h30, sol não apropriado para portadores de Psoríase. Conversamos sobre o quê? Psoríase. Percebo em seus braços e suas pernas tomadas por escamações grandes e avermelhadas. Durante a conversa, a jovem de 19 anos manifesta-se impaciente. Sente comichão e coça o corpo.

Engraçado, depois que você descobre que tem uma doença percebe que muita outras também a têm. São jovens e adultos que se solidarizam. São dezenas de relatos. - Meu pai, minha irmã, a filhinha de oito meses da minha vizinha, o meu avô, o meu namorado. – Todos têm Psoríase. Sim, talvez seja a doença que afeta mais as pessoas brancas e não discrimina idade ou sexo.

- Professor será que a Psoríase têm cura? Já tentei de tudo.

- Atualmente, pelo que tenho acompanhado, existem vários tratamentos. Em alguns pode ter amenizado e atenuado, ou, no momento, proporcionado melhora. Mas, pelo que tenho lido e presenciado, não! Não tem cura.

Como viver com a incerteza, o preconceito, os olhares admirados ou de desconfiança dos familiares, colegas de trabalho, na praia, na escola de natação? Qual a solução? Esconder-se? Usar roupas longas e mostrar somente o nariz? Não! É preciso conviver e aprender a viver com todos e para todos. Ser natural nas relações. Agir com confiança, pois pode-se trabalhar, namorar, relacionar-se, fazer sexo e ter filhos. Entendo a angústia de uma criança de sete anos, da jovem estudante universitária, da mãe grávida, do avô preocupado com seus netos.

A Psoríase é uma doença dermatológica, inflamatória, caracterizada pela multiplicação acelerada dos queratinócitos, as células da pele, na qual partes da pele ficam inflamadas, auto-imune, e desenvolvem uma textura escamosa e avermelhada, e em alguns casos, coceira intensa. Pode ser localizada em mãos, pés, cotovelos e couro cabeludo. Casos graves atacam todo o corpo e as articulações. Sabe-se que a Psoríase é agravada pelo estresse e por fatores genéticos, porém ainda não se conhece o elemento desencadeador – antígeno. Estima-se que 2% a 4% da população branca mundial tenham Psoríase. Entre os negros esta percentagem é bem menor. Atinge adultos, principalmente entre 20 e 50 anos. Embora raro, crianças podem sofrer. Não é contagiosa.

Já existem, no mundo e no Brasil[2], organizações não-governamentais que se preocupam com pacientes de Psoríase e os cidadãos que desejam saber mais ou até ajudar. Os órgão governamentais, na esfera federal, estadual e municipal, – não tratam essa doença uma questão pública. Será que não basta atingir três entre cada 100 pessoas? Acredito que o homem, a saúde e a comunicação estão imbricados de forma que as informações sejam socializadas via veículos de comunicação, eventos científicos, campanhas governamentais etc. Ao expor que sou portador de Psoríase, penso na oportunidade de transmitir conhecimento, mesmo não sendo da área médica. Tenho a responsabilidade de dividir com os outros um novo pensar e agir. Desta forma, entendo que a comunicação desempenha o papel de esclarecer, refletir e prevenir doenças. Ao partilhar a doença com quem não a têm, diminuo o preconceito.

- Eu tenho psoríase. E você?


[1] Crônicas: Eu tenho psoríase I – Elaborada por João Carissimi, relações-públicas, CONRERP RS/SC 969 – professor universitário : Universidade do Vale do Itajaí (Univali) – curso: Comunicação Social- habilitação em Relações Públicas. Itajaí/SC. Atualizado em 05 de maio de 2005.

[2] Informações disponível no site www.gagip.com.br Grupo de apoio a pesquisa e a informação da psoríase. Acesso em 5/5/2005. www.dermatologia.net/doencas/psoriase.htm acesso em 5/5/2005


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